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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

BIOMECÂNICA NOS JOGOS PARALÍMPICOS | PARACICLISMO


Nestes dias ocorrem no Rio os Jogos Paralímpicos de 2016. Os Jogos Paralímpicos trazem para nós sentimentos mistos. Sentimentos de emoção e admiração por atletas que superam dificuldades as quais muitos de nós não imaginam ser possíveis de suportar, e sentimentos de indignação, como no caso de atletas que têm suas histórias de superação reveladas tendo como plano de fundo um acidente automobilístico, um atropelamento. Mas uma coisa que a vida nos ensina é que devemos valorizar a coisas boas, e as coisas ruins devem ser deixadas de lado. Devemos celebrar o que é bom. Um dos esportes mais emocionantes nos jogos paralímpicos é o ciclismo. Quanta força, quanta potência, e quanto controle de movimentos esses atletas mostram. Inicialmente apenas atletas com deficiência visual participavam do ciclismo paralímpico. Em 1984, atletas com paralisia cerebral e amputados foram incluídos e em 1988 o ciclismo paralímpico de estrada foi incluído no programa oficial, embora a classificação em categorias tenha sido estabelecida apenas em 1996. Provas no velódromo foram incluídas em 2000, assim como handcycling, ou ciclismo para cadeirantes. O ciclismo paralímpico exigiu algumas adaptações nas regras da UCI, com o uso de triciclos, bicicletas para duas pessoas e o uso das mãos para a propulsão da bicicleta. A produção científica no ciclismo paralímpico é insipiente. No medline, a busca por esses temas revela apenas 8 estudos, o que é ampliado se usarmos termos como handcycling e outros. Os estudos, até pouco tempo atrás, tinham um foco muito forte em desenvolver tecnologias que permitissem aos atletas a prática. Com o avanço tecnológico muito relacionado com esses estudos, hoje temos mais e mais grupos investigando aspectos de desempenho e treinamento desses atletas. Nestes jogos, o ciclismo paralímpico tem atletas com idade desde 18 até 58 anos. A maioria dos atletas é do sexo masculino, e a faixa etária com o maior número de atletas é a dos 30 aos 40 anos, seguido da faixa com atletas de 40 anos de idade ou mais. O Brasil está representado no paraciclismo de estrada por três atletas: Jady Malavazzi, Lauro Chaman e Soelito Gohr. Jady compete desde 2011 (tem 20 anos), e foi um acidente de carro que aos 12 anos mudou toda a sua vida fazendo com que elas perdesse os movimentos das pernas. Lauro Chaman, que tem uma deficiência na perna esquerda, produz cerca de 30% de força a menos naquela perna, o que não impede ele de competir em grandes provas e obter grandes resultados. Soelito sofreu um acidente enquanto treinava e ficou com limitações nos movimentos do braço esquerdo e por isso compete em uma bicicleta adaptada. Alguns destes também competirão nos eventos de pista (velódromo), onde temos outros representantes em outras categorias. Vamos ficar na torcida para que nossos atletas consigam atingir na Rio2016 os excelentes resultados que vêm alcançando nas competições nacionais e internacionais que participam!

Prof. Dr. Felipe Carpes
Professor Universidade Federal do Pampa
Presidente da Sociedade Brasileira de Biomecânica



segunda-feira, 12 de setembro de 2016

BIOMECÂNICA NOS JOGOS PARALÍMPICOS | ATLETISMO PARALÍMPICO




No dia 08 de setembro iniciam as provas da modalidade que mais obteve medalhas em Jogos Paralímpicos, o Atletismo. Ao total nossos atletas conquistaram 109 medalhas (32 ouros, 47 pratas e 30 bronzes), e neste ano 61 atletas farão parte da delegação. Nesta edição dos jogos a expectativa do Comitê Paralímpico Brasileiro é a conquista de 11 a 14 medalhas de ouro, o que poderia colocar o Brasil na 5a colocação geral no quadro de medalhas. A participação dos atletas se dá em provas de campo (Field), que envolvem as provas de arremessos, lançamentos e saltos e de Pista (Track) com as provas de velocidade e fundo.
Os atletas são divididos em classes de acordo com a deficiência. As classes para as provas de pista são: F11 a F13 (pessoa com deficiência visual), F20 (pessoas com deficiência intelectual), F31 a F38 (pessoas com paralisia cerebral, sendo de 31 a 34 para cadeirantes e de 35 a 38 para ambulantes), F40 (anões), F41 a F46 (amputados e outros), F51 a F58 (cadeirantes com sequelas de poliomielite, lesões medulares e amputações). Já as provas de pista possuem as seguintes classificações: T11 a T13 (pessoa com deficiência visual), T20 (essoas com deficiência intelectual), T31 a T38 (pessoas com paralisia cerebral, sendo de 31 a 34 para cadeirantes e do 35 a 38 para ambulantes), T41 a T46 (amputados e outros (les autres) e T51 a T54 (cadeirantes com sequelas de poliomielite, lesões medulares e amputações).
Será muito comum observar os atletas utilizando próteses e cadeiras de rodas durante as competições. A evolução desses equipamentos é constante e a biomecânica em muito tem colaborado para isso. Enquanto o desenvolvimento de materiais leves reduzem o custo energético da locomoção, a criação de próteses flexíveis, como as J-shaped facilitam o aproveitamento da energia elástica. Talvez o grande desafio da aplicação da biomecânica do atletismo paralímpico esteja na adequação dos conhecimentos gerados a partir de atletas sem deficiências, associados a soluções de problemas práticos e específicos de cada atleta.
Ao contrário do atletismo olímpico, no paralímpico temos muitos favoritos a medalha de ouro. Eu destacaria no masculino o atleta Lucas Prado (T11), especialista em provas de 100, 200 e 400m rasos e Yohansson Nascimento (T46) que foi ouro nos 200m e prata nos 400m em Londres-2012. Não poderia deixar de citar o atleta do salto em altura Flávio Reitz. O referido atleta tem grandes chances de subir ao pódio, sendo que no último ano teve sua evolução física monitorada pelo Laboratório de Biomecânica da UFSC. No feminino os destaques são Teresinha Guilhermina (T1 ou T2) medalhista de ouro nas provas de 100 e 200m em Londres-2012 e Silvania Costa de Oliveira (T11), medalhista de ouro no salto em distância disputado em 2015 em Doha (Qatar). Agora é torcer pelos nossos atletas!

MSc. Mateus Rossato
Professor da FEFF/UFAM e doutorando no PPGEF do CDS/UFSC.



terça-feira, 23 de agosto de 2016

BIOMECÂNICA NOS JOGOS OLÍMPICOS | GINÁSTICA RÍTMICA


Durante os três últimos dias de Olimpíadas são realizadas as provas da Ginástica Rítmica (GR). A modalidade, que foi inserida no programa olímpico em 1984, nos Jogos Olímpicos de Los Angeles (EUA), é uma das poucas modalidades que tem suas provas disputadas apenas por mulheres.
Fortemente influenciada pelo ballet clássico, a GR combina a execução de movimentos corporais como saltos, giros e equilíbrios, com o manejo de aparelhos, sempre acompanhado por estímulo musical. Uma destacada particularidade da GR é a grande amplitude nos movimentos realizados pelas atletas. A flexibilidade é uma capacidade física que proporciona graciosidade e maior dificuldade aos elementos corporais desta modalidade. Junto da flexibilidade, a força, a agilidade, o equilíbrio e a coordenação são capacidades imprescindíveis para se alcançar o ponto central da modalidade, que são movimentos rápidos e precisos.
Sem representantes em 2012, na edição Rio2016, o Brasil conseguiu classificação para as disputas individuais e de conjunto. A capixaba Natália Gaudio quebra o período de 24 anos sem representação brasileira nas provas individuais. No conjunto, as atletas Emanuelle Lima, Francielly Machado, Gabrielle Moraes, Jéssica Maier e Morgana Gmach buscam classificação para as finais. As grandes favoritas para a conquista de medalhas são as ginastas russas, tanto nas competições individuais, quanto no conjunto. Entretanto, outras nações do leste e sudeste europeu, como Bulgária, Bielorússia e Ucrânia, estão na disputa por um lugar no pódium. Nas disputas de conjunto, além dos países citados, Itália e Espanha também prometem deixar a competição acirrada.
Apesar do código de pontuação da modalidade exigir o conhecimento das bases biomecânicas dos movimentos, como planos e eixos, para avaliar os movimentos da modalidade, avaliações biomecânica tem se inserido aos poucos no esporte. Por ser uma modalidade que possui uma rotina de treinos bastante volumosa, a tendência está no entendimento das adaptações orgânicas geradas pelos treinamentos. Em competições podemos observar atletas sustentar posições com movimentos, de tronco ou membros, em angulações que excedem a normalidade e, ao mesmo tempo, acompanhamos tais atletas, que possuem com corpos magros, realizarem sucessivos saltos que exigem elevados nível de potência muscular. O que nos faz pensar em como se comportam as relações musculares de força X comprimento e força X velocidade nessas atletas.
Pesquisas tem sido desenvolvidas para entender a adaptação das ginastas em relação à arquitetura muscular, capacidade de produção de força e outros pontos relacionadas à neuromecânica muscular. Embora esses estudos requisitem sistemas avançados, outro ramo da biomecânica que vem sendo largamente utilizado na busca por mais precisão nos movimentos das atletas, a cinemetria. Embora de forma menos precisa, a evolução da tecnologia permite que hoje, utilizando smartphones e aplicativos específicos, treinadores e atletas consigam avaliar os movimentos realizados durante a rotina de treinamentos de forma quase instantânea, corrigindo eventuais erros. Dessa forma, embora tenhamos poucas pesquisas publicadas que envolvam a biomecânica e a GR, podemos perceber que os princípios a biomecânica tem contribuído pela evolução da modalidade.



Prof. Me. Anderson Simas Frutuoso
Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC)

Membro do Grupo de Pesquisas em Biodinâmica – GPBIO (UFSC)

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

BIOMECÂNICA NOS JOGOS OLÍMPICOS | MOUNTAIN-BIKE CROSS-COUNTRY




Nos Jogos Olímpicos deste ano o mountain-bike (MTB) acontece nos próximos dias. Desde 1996 como parte dos jogos, o MTB é um dos esportes que mais ganha praticantes no Brasil. Nos jogos Rio2016 teremos três representantes: Raiza Goulão, Henrique Avancini e Rubens Donizete (o mais experiente em jogos olímpicos, que disputa sua terceira olimpíada consecutiva). O que assistiremos nos dias 20 (feminino) e 21 (masculino) é o cross-country olímpico, ou XCO. No XCO os atletas correm em um circuito (o da Rio2016 tem cerca de 4,85 km) sendo que os homens completarão 7 voltas e as mulheres 6 voltas. Diferente do ciclismo de estrada, os atletas do MTB não tem socorro mecânico, e se acontecer algum imprevisto, precisam se virar para chegar até o ponto de apoio.

As provas MTB serão pesadas e exigirão muito dos atletas. O trajeto escolhido para a Rio2016 tem tudo de melhor que o XCO pode oferecer. Como o XCO não pode ter mais do que 15% do trajeto do circuito em terreno plano, teremos trechos de fortes subidas e fortes descidas. Isso promete muita velocidade nas descidas e exigirá a melhor técnica dos atletas. Nas subidas, será a capacidade de produzir potência um dos determinantes. No nível olímpico, todos os competidores usarão o que há de melhor em termos de equipamentos, mas será a capacidade de produzir força rapidamente para retomadas e subidas, aliado a técnica de saltos e ultrapassagem de obstáculos o que poderá determinar os vencedores e as vencedoras.

A biomecânica tem um papel fundamental nisso. Ciclistas MTB possuem diferenças nos padrões de aplicação de força no pedal e de cinemática dos membros inferiores quando comparados com outros ciclistas de estrada. A maior amplitude de movimento do tornozelo observada durante a pedalada de atletas MTB parece garantir uma aplicação de força por mais tempo durante o ciclo de pedalada. Além disso, o ciclista MTB usa mais a “puxada” do pedal em subidas, assim como para buscar saltar obstáculos e diminuir o impacto nos trechos em que há pedras. Tudo isso combinado com uma grande capacidade de produzir potência. Logo, muita força muscular é exigida, e não somente nos membros inferiores. Por isso que cada vez mais os ciclistas MTB incluem rotinas de treino de força em seus treinamentos.

Quem leva a medalha de ouro? No masculino é tentador dizer que o favorito é Nino Shurter, o Suíço que ganhou quase todos os campeonatos mundiais e copas do mundo da UCI nos últimos anos. Mas é a França o país com mais tradição no XCO nos jogos olímpicos, tendo levado medalhas em todas os jogos até agora. O principal francês no páreo é Julien Absalon, frequentemente chamado de “o melhor de todos os tempos” e atual líder do ranking da UCI. Eles já duelaram forte antes e talvez na Rio2016 a disputa entre ouro e prata fique entre eles. Mas não podemos deixar de mencionar que o campeão mundial de estrada Peter Sagan veio a Rio2016 para competir no XCO. O Eslovaco que começou no ciclismo como atleta de MTB com vários títulos é conhecido por sua força e impressionante capacidade de produção de potência. Embora eu goste do Sagan, acho que ele não vem em condições de levar medalha. Henrique Avancini que obteve a 22ª posição no mundial deste ano, a melhor da história do Brasil no masculino, e que compete em casa, vem se preparando muito seriamente para a prova. Eu vou apostar em Avancini brigando pelo top 10, e que sabe, uma medalha. Estarei na torcida por ele.

Entre as mulheres, a dinamarquesa Annika Langvad que levou o campeonato mundial desse ano e várias etapas da copa do mundo é franca favorita. Jolanda Neff, da Suíça, que levou as copas do mundo de 2014 e 2015 e também compete no ciclismo de estrada, está sendo bastante cotada para vencer. Na Rio2016 ela já competiu, foi a 8ª colocada na prova de ciclismo de estrada. Então, considerando a temporada atual, fica fácil apostar em uma das duas para o ouro. E quem sabe nossa bicampeã nacional e 10ª colocada no ranking mundial não faz uma prova sensacional e belisca o pódio?

Então vamos ficar ligados, pois às 12:30h no sábado e domingo tem MTB na Rio2016.

Prof. Dr. Felipe Carpes
Presidente da Sociedade Brasileira de Biomecânica
Grupo de Pesquisa em Neuromecânica Aplicada
Universidade Federal do Pampa

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

BIOMECÂNICA NOS JOGOS OLÍMPICOS | CICLISMO DE ESTRADA

Os jogos olímpicos iniciarem com uma bela cerimônia de abertura e seguem encantando o mundo com recordes olímpicos decorrente do desempenho de atletas altamente preparados. Para o Brasil, é uma oportunidade única de poder assistir a uma modalidade esportiva com o qual o Brasil possui pouca afinidade. Por mais incrível que pareça, o ciclismo é um esporte no qual o Brasil possui limitada expressão, para ser generoso. Na América Latina, certamente a Colômbia é o maior berço de atletas de elite no ciclismo.
É comum pensarmos nas provas de estrada do ciclismo, em função de competições tradicionais como o Tour de France. No entanto, o ciclismo olímpico possui quatro modalidades: estrada, pista, mountain bike e BMX. As provas de estrada são as mais tradicionais, enquanto o mountain bike foi introduzido nos jogos de Atlanta (1996) e o BMX está debutando no Rio. Cada modalidade possui uma série de provas com características distintas. No caso das provas de estrada, a etapa de resistência envolveu um percurso de 254,6 km no qual os ciclistas largam juntos e aquele que chegasse primeiro ganharia a medalha de ouro. Já a prova de contrarrelógio envolveu um percurso de quase 60 km no qual cada atleta realizou a largada isoladamente e levou o ouro o ciclista que percorreu o percurso no menor tempo. Desta forma, na prova de contrarrelógio o ciclismo não pode se beneficiar da “carona” oferecida pela pedalada no “pelotão”.
Tive a feliz oportunidade de assistir in loco a largada e a chegada da prova de resistência do ciclismo de estrada (fotos abaixo).

Largada da prova de resistência do ciclismo de estrada
Chegada da prova de resistência do ciclismo de estrada



Esta prova, assim como a prova de resistência do ciclismo feminino ficaram marcadas pelas quedas (literalmente!) de líderes, como Vicenzo Níbali (para os homens) e da ciclista Annemiek van Vleuten. Muito foi comentado sobre a periculosidade do percurso, o qual envolvia descidas sinuosas realizadas em alta velocidade. Com isto, era esperado que alguns atletas pudessem ter dificuldades nesta parte do percurso. Ambas as provas contaram com muita emoção até o final, principalmente na prova feminina quando a ciclista Fernanda Oliveira obteve a melhor marca brasileira na história das olimpíadas com o 7° lugar a 40s da vencedora. Certamente o Brasil sai dos jogos com um resultado excelente para o ciclismo, visto o baixo investimento realizado neste esporte.
         
           Falando um pouco de ciência, o ciclismo é um esporte que envolve a ação coordenada cíclica de múltiplos músculos dos membros inferiores afim de gerar propulsão, e dos membros superiores e do tronco gerando a estabilidade necessária para que o ciclista consiga permanecer em uma posição fletida sobre a bicicleta por seis horas ou mais. A relação entre a produção de força e o elevado número de repetições (maior do que 90 por minuto na maior parte da prova) implica em uma combinação ótima das propriedades força-comprimento-velocidade dos músculos esqueléticos. Cada vez mais, a ciência vem contribuindo para se atingir melhores índices nestas provas. Esta aplicação dos conhecimentos da fisiologia muscular tem sido cada vez mais utilizada nos programas de treinamento com o intuito de ofertar estímulos efetivos para que os ciclistas possam melhorar o seu desempenho. Há ainda muitos aspectos do gesto mecânico do ciclismo que são passíveis de discussão na literatura e entre os técnicos e atletas de ciclismo. Esperamos que o resultado da Fernanda Oliveira auxilie no incentivo a este esporte altamente técnico e complexo no Brasil.

Dr. Rodrigo Bini
Escola de Educação Física do Exército
Membro do Grupo de Estudo e Pesquisa em Ciclismo

terça-feira, 16 de agosto de 2016

BIOMECÂNICA NOS JOGOS OLÍMPICOS | JUDÔ

       O judô, traduzido como “caminho suave”, foi criado no Japão por Jigoro Kano em 1882. Nos Jogos Olímpicos foi introduzido em Tóquio 1964 e, desde então, só esteve ausente em uma edição dos Jogos Olímpicos realizado na Cidade do México 1968. As técnicas utilizadas na luta de judô são divididas em técnicas de projeção, as quais podem ser de perna (Ashi-waza), braço (Te-waza), quadril (Koshi-waza) e sacrifício (Sutemi-waza), técnicas de imobilização (Ossae-waza), chaves articulares (Kansetsu-waza) e estrangulamentos (Shime-waza). Fazem parte dos Jogos Olímpicos sete categorias divididas pela massa corporal dos atletas, sendo: -60 kg (ligeiro), 60-66 kg (meio-leve), 66-73 kg (leve), 73-81 (meio-médio), 81-90 (médio), 90-100 (meio-pesado) e +100 kg (pesado) para o masculino; -48 kg (ligeiro), 48-52 kg (meio-leve), 52-57 (leve), 57-63 (meio-médio), 63-70 (médio), 70-78 (meio-pesado) e +78 kg (pesado) para o feminino. Atualmente, a duração da luta é de 4 min para o feminino e 5 min para o masculino. Existem três pontuações que definem a luta, sendo elas: yuko (um terço de um ponto), wazari (meio ponto) e ippon (ponto completo).
        O judô brasileiro tem tradição nos Jogos Olímpicos, com resultados históricos expressivos, como a primeira medalha de ouro com Aurélio Miguel (Seul 1988) e a primeira medalha de ouro feminina com Sarah Menezes (Londres 2012). No total, o judô brasileiro já rendeu 19 medalhas olímpicas, antes do Rio 2016. Baseado nesse retrospecto, esperava-se que uma Olimpíada em casa supera-se Londres 2012, onde o judô conquistou 4 medalhas (1 de ouro e três de bronze). No entanto, o favoritismo não estava totalmente ao nosso lado, pois apenas 3 atletas estavam entre os cinco primeiros do ranking mundial, sendo elas Sarah Menezes (5º lugar), Érica Miranda (4º lugar) e Mayra Aguiar (4º lugar). Mas o esporte também tem surpresas e a melhor delas chama-se Rafaela Silva. Nossa “peso leve” era apenas a 11º do ranking e chegou no lugar mais alto do pódio. Já Mayra é considerada um ícone no judô brasileiro e, embora todos esperassem um confronto na final com a arquirrival americana Kayla Harrison, ela superou a queda na semifinal e mostrou o seu verdadeiro judô conquistando a medalha de bronze. O terceiro lugar de Rafael Silva, nosso peso pesado, não pode ser considerado uma surpresa, embora os resultados recentes, principalmente devido a lesões, o tenham colocado apenas na 12º posição antes dos Jogos. Ele superou mais uma vez a derrota para Teddy Riner na semifinal e conquistou sua segunda medalha de bronze em Jogos Olímpicos. 
O sucesso nos esportes de combate, em especial o judô, depende da execução de técnicas em elevada velocidade e com grande eficiência, na maioria das vezes com alta exigência de potência. Assim, a correta análise biomecânica da execução técnica pode permitir ao treinador intervir adequadamente no processo de correção de sua execução, contribuindo para a melhoria do desempenho de seus atletas. Por exemplo, a eficiência mecânica de uma técnica de projeção com o apoio do quadril (Koshi-waza) pode ser modificada dependendo da estatura do oponente, devido às mudanças nos braços de alavanca e, consequentemente, do torque final. Esse pode ser um aspecto a ser considerado no momento de analisar os adversários e propor estratégias de melhora técnica, principalmente em casos onde o nível competitivo é tão semelhante, como nos Jogos Olímpicos. Além disso, avaliações biomecânicas de força/potência podem possibilitar tanto o acompanhamento do nível de treinamento quanto à prescrição de cargas adequadas ao treino da capacidade neuromuscular envolvida.

Profa. Dra. Daniele Detanico
Universidade Federal de Santa Catarina
Membro do Laboratório de Biomecânica

Faixa preta de judô 1º Dan 

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

BIOMECÂNICA NOS JOGOS OLÍMPICOS | LANÇAMENTO DO MARTELO

        O lançamento do martelo é considerado uma das provas mais difíceis do atletismo, pois a técnica de lançamento envolve série de ações complexas realizadas pelo lançador durante rotações sucessivas do corpo com o martelo em altas velocidades angulares. O martelo, de massa de 7,26 Kg no masculino e 4 Kg no feminino, é composto por uma esfera de metal chamada cabeça, presa por um cabo de aço de 1,2 m que termina em uma manopla, segurada pelas mãos do atleta para realizar o lançamento. Em geral, os atletas realizam 3 ou 4 giros antes do lançamento, dentro de uma área circular com 2,135 m de diâmetro, sendo necessário recuperar o equilíbrio dentro dessa área de lançamento após o lançamento.
        A prova faz parte do atletismo olímpico desde 1900 em Paris no masculino e desde 2000 no feminino. Os recordes mundiais são de 86,74 m no masculino e 81,08 m, obtidos pelo soviético Yuriy Sedykh em 1986 e pela polonesa Anita Wlodarczyk em 2015, respectivamente. Os recordes brasileiros pertencem a Wagner José Alberto Carvalho Domingos, com 78,63 m no masculino, e a Mariana Grasielly Marcelino com 64,90 m, ambos obtidos em 2016. Wagner Domingos estará entre os 33 atletas que conseguiram índice para a disputa Olímpica no Rio de Janeiro, ao lado do principal favorito Pawel Fajdek da Polônia, que detém 9 das 10 melhores marcas de 2016, além de outros fortes lançadores como Wojciech Nowicki da Polônia, Nick Miller do Reino Unido, Ivan Tsikhan da Bielorrússia, David Soderberg da Finlândia e Krisztián Pars da Hungria.
        A distância alcançada no lançamento depende de dois fatores: da resistência do ar, que pouco varia de lançamento para lançamento, e do vetor velocidade do centro de massa do martelo no instante da saída das mãos do lançador. Esse vetor pode ser decomposto em 3 variáveis de saída, portanto dependentes, que são: velocidade escalar, ângulo entre o vetor velocidade e a horizontal e altura. A figura mostra a trajetória do martelo durante os giros e as variáveis de saída:


 
Figura - Vista lateral da trajetória do martelo, com a representação das variáveis ângulo αo, velocidade vo e altura ho no instante de saída do martelo das mãos do lançador.
        As velocidades escalares alcançadas nos lançamentos de alto nível ultrapassam 30 m/s e deve ser a maior possível, sendo determinada pela capacidade do atleta em acelerar o martelo durante os giros. Pode-se imaginar que aumentando o número de giros é possível aumentar a velocidade de saída, contudo, atletas de alto nível que tentaram realizar 5 giros encontraram dificuldades em manter a precisão da direção do lançamento, já que a abertura da gaiola para a saída do martelo é pequena, bem como problemas em manter o equilíbrio do corpo e, com isso não apresentar aumento da velocidade da cabeça do martelo do 4o para o 5o giro.
        Já o ângulo e a altura de saída dependem da estatura do lançador e da trajetória da cabeça do martelo durante o último giro. O ângulo de saída ótimo é um pouco menor que 45o, dependendo da altura de saída. A estatura do lançador limita a capacidade de atingir esse ângulo, uma vez que o a cabeça do martelo pode tocar no solo antes da saída, como podemos ver pela figura. Assim, os lançadores de alto nível são atletas altos, fortes e com grande massa corporal, e devem ter coordenação apurada para desenvolverem os giros e realizarem grandes lançamentos.

        Realizar análises cinemáticas do lançamento do martelo a partir de vídeos é uma maneira de gerar informações importantes para planejamento do treinamento e desenvolvimento da técnica do lançador, e tem sido feita por todo o mundo, a partir de conceitos e metodologias fornecidos pela biomecânica.

Prof. Luciano Allegretti Mercadante
Laboratório de Biomecânica e Instrumentação – LABIN
Faculdade de Ciências Aplicadas – FCA – UNICAMP Limeira 

domingo, 14 de agosto de 2016

BIOMECÂNICA NOS JOGOS OLÍMPICOS | ATLETISMO


O Atletismo é um esporte individual, considerado aquele em que melhor traduz os ideais olímpicos evidenciados por Barão de Coubertin: “citius, altius e fortius”, i.e., o mais rápido, o mais alto, o mais forte. Esta modalidade esteve presente desde a primeira edição dos jogos Olímpicos da era Moderna em Atenas, no ano 1896. A partir daí o Atletismo ganhou força e sua prática difundiu-se em todo o mundo nas décadas seguintes, sendo reforçada a partir de 1912, com a fundação da Federação Internacional de Atletismo (IAAF). As provas do Atletismo são dividas em três blocos principais: as corridas, os saltos e os lançamentos. Aparecem ainda a macha Atlética e as provas combinadas.
O Brasil certamente nunca foi uma potência do Atletismo mundial, mas já viveu anos melhores. São 14 medalhas para o país em todas as edições dos jogos, das quais quatro foram de ouro, três de prata e sete de bronze. Importante destacar a tradição do salto triplo brasileiro, com os saltadores como Ademar Ferreira da Silva (ouro e 1952 e 1958), Prudêncio (prata em 1968 e bronze em 1972) e João Carlos de Oliveira – João do Pulo – (bronze em 1976). Entre os corredores, destaca-se Joaquim Cruz, medalha de ouro nas olimpíadas de 1984 e prata em 1988. Além deste, Zequinha Barbosa nos 800 m e Robson Caetano medalharam em 1988. Este último, inclusive, é detentor do recorde brasileiro nos 100 m rasos (10s00) que perdura por 27 anos. Mais recentemente, tivemos as conquistas de medalhas de bronze e prata em 1996 e 2000, respectivamente, no revezamento 4 x 100m. A única e histórica conquista no Atletismo feminino foi o ouro de Maurem Magi no salto em distância, nas olimpíadas de Pequim, 2008.
Mas na Olimpíada do Rio 2016, haverá possibilidades de medalhas para Brasil no Atletismo? Pode-se dizer que sim, mas se resumem basicamente a duas atletas: Fabiana Murer, do salto com vara e Keila Costa, do salto em distância e triplo. Na equipe masculina, a maratona sempre revela algum destaque brasileiro, porém dificilmente haverá medalhas neste ano.
Já o cenário internacional é historicamente dominado pelos Estados Unidos, são mais de 700 medalhas na história. No entanto, a sensação mundial do momento é a equipe Jamaicana, com destaque é claro para os atletas da velocidade. Os jamaicanos vêm dominando tais provas nos naipes masculino e feminino. E a tradicional e glamorosa prova dos 100 m rasos, quem ficará com o ouro? Entre os homens, tem-se dois jamaicanos na disputa: obviamente, a lenda Usain Bolt e o jovem Yohan Blake. Porém, talvez o principal adversário para Bolt será o experiente americano Justin Gatlin, de 34 anos, que vem com sede de vitória. Bolt fará ainda mais história se vencer os 100 m rasos, será o primeiro a vencer três edições seguidas da prova. Porém, as últimas lesões preocupam o jamaicano, mas ninguém ousa duvidar da lenda das pistas. Nos 200 m rasos, outra especialidade de Bolt, o mesmo deverá confirmar a medalha de ouro.
Com o crescimento do olimpismo e a profissionalização no esporte nas últimas décadas, a preocupação com o desempenho dos atletas tornou-se uma necessidade entre treinadores. E como a Biomecânica contribuiu e contribui para melhorar o desempenho dos atletas? Umas das formas mais importantes é com a avaliação da técnica esportiva, principalmente em esportes individuais como o Atletismo, de caráter eminentemente técnico. Nos Jogos Olímpicos de 1968 Dick Fosbury venceu a prova do salto em altura ao projetar-se de costas, uma técnica inovadora para a época. Mais tarde, análises biomecânicas mostraram sua eficiência pelo fato do centro de gravidade passar por baixo do sarrafo no momento do salto. Atualmente, pequenos detalhes técnicos fazem a diferença entre o primeiro e último lugar em uma prova. Assim, análises cinemáticas permitem detalhar o gesto técnico do atleta, que não seria possível a olho nu. Tal análise possibilitará ao treinador intervenções para aperfeiçoar o gesto de modo a alcançar níveis mais elevados.
Tomando como exemplo as corridas, uma técnica consolidada resultará em um corredor mais rápido e mais eficiente. Dois parâmetros biomecânicos amplamente analisados são a amplitude e frequência das passadas, que são determinantes da velocidade de deslocamento. Um dos principais diferenciais de Usain Bolt é possuir grande amplitude de passada (em função do comprimento de seu membro inferior) e elevada frequência de passada (possibilitada pela sua elevada potência muscular). Análises da curva de velocidade, o que podemos considerar uma análise cinemática, evidenciam que o grande determinante de velocista Usain Bolt nos 100 m rasos é a menor desaceleração ao final da prova.
Desta forma, verifica-se que a Biomecânica é uma ferramenta indispensável para a avaliação da técnica no Atletismo, o que consequentemente implicará no desempenho. Certamente o conceito de avaliação biomecânica é algo bastante amplo. Com o avanço tecnológico verifica-se constantemente novas tecnologias que estão sendo utilizadas em Biomecânica do Esporte, colaborando para o progresso e modernização esportiva.   

Prof. Dr. Juliano Dal Pupo
Universidade Federal de Santa Catarina
Membro do Laboratório de Biomecânica



sábado, 13 de agosto de 2016

BIOMECÂNICA NOS JOGOS OLÍMPICOS | ESPORTES DE COMBATE


Na última segunda-feira o Brasil se encheu de lágrimas e orgulho com a vitória da judoca Rafaela Silva, primeira medalha de ouro brasileira nos Jogos do Rio 2016. O Brasil virou os olhos para o judô, descobrindo terminologias como ippon, wazari e yuko. O judô é a modalidade que trouxe o maior número de medalhas para o Brasil em Jogos Olímpicos! Mas, você sabia que além do judô existem outras quatro modalidades de esportes de combate olímpicas?

Os esportes de combate são representados nos Jogos Olímpicos pelas modalidades: luta olímpica, judô, boxe, taekwondo e esgrima. E a partir de 2020, em Tóquio, teremos a estréia do karate.

Conceitualmente podemos classificar os esportes de combate (EC) em percussão, domínio e misto. Os EC de percussão tem como principal objetivo o toque por ações como socos e / ou chutes, caso do boxe, taekwondo e karate; ou toque por implementos como, a esgrima. Nos EC de domínio, a principal ação é o agarre, com técnicas de projeção, imobilização e chaves, caso da luta olímpica e judô. Enquanto que os EC mistos utilizam técnicas de percussão e domínio, caso do mixed martial arts, que não é esporte olímpico.

Dentre as diversos fatores que podem afetar o rendimento esportivo, sem dúvida a compreensão da biomecânica é uma importante variável de estudo. Ao identificar o comportamento neuromuscular em técnicas específicas da modalidade, o atleta / técnico podem otimizar a melhor estratégia motora a ser utilizada. Uma melhor estratégia técnica e tática são diferenciais em situações competitivas.

Para EC de percussão, as variáveis de potência, velocidade e impacto são fundamentais para a aquisição de pontos na modalidade. A potência muscular se manifesta principalmente na aplicação de golpes. Algumas modalidades que tem por característica o semi contato otimizam a velocidade de golpes, enquanto que modalidades de contato necessitam de elevados valores de impacto.

Nos EC de domínio, sabemos que as principais variáveis associadas ao rendimento esportivo são potência e força, especialmente pela necessidade de técnicas de agarre. As técnicas de projeção requerem a combinação de força máxima e resistência de força para a manutenção da pegada e potência para o arranque. As técnicas de imobilização, chaves e estrangulamentos (técnicas utilizadas no judô) requerem elevadas demandas de força isométrica e dinâmica.

Dentro deste contexto, a biomecânica pode analisar o padrão de equilíbrio empregado ao executar as técnicas de percussão e domínio, para melhor estruturar a situação de luta; compreender a estruturação de estratégias motoras, como ocorre o recrutamento muscular, bem como a cinemática dos golpes empregados em situação de luta são indispensáveis para a organização da correção da técnica para garantir a efetividade do treinamento.

A prevenção de lesões pode ser estudada pela análise de diferentes técnicas de projeção em EC de domínio, bem como o impacto e velocidade de golpes em EC de percussão. Ou até mesmo a análise de impacto em diferentes tipos de tatames ou a efetividade na utilização de protetores.

Atualmente, muitos atletas utilizam cotidianamente a análise cinemática para correção técnica, com recursos simples como câmeras com filmagem de 60 ou 120 frames. No entanto, ainda precisamos de uma maior aproximação entre ciências do esporte e a prática cotidiana.

Oss!

Profa. MSc Keith Sato Urbinati
2 Dan Karate
Grupo de Estudos em Neuromecânica (GEN)
Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR)



sexta-feira, 12 de agosto de 2016

BIOMECÂNICA NOS JOGOS OLÍMPICOS | FUTEBOL, BIOMECÂNICA E LESÕES

O futebol é um dos primeiros esportes coletivos a estar inserido no programa Olímpico, fazendo a sua estreia em 1908 nas Olimpíadas de Londres. A partir de então o futebol como modalidade olímpica vem proporcionado grandes surpresas quando levamos em consideração o histórico de seleções medalhistas, principalmente porque nos Jogos Olímpicos existe uma idade limite no masculino (máximo de 23 anos, com exceção de três atletas) e isso faz com que seleções que não tem tanta representatividade na Copa do Mundo de Futebol, muitas vezes acabem conseguindo destaque nos Jogos. 
Nas Olimpíadas Rio 2016 podemos apontar quatros seleções que possuem certo favoritismo tanto no futebol masculino como no feminino. No masculino: Brasil (país-sede e que busca a primeira medalha olímpica de ouro), Portugal (atual vice-campeã sub-21 europeia), Alemanha (que possui um trabalho intenso nas categorias de base) e México (atual campeão olímpico). Já no futebol feminino: Brasil (país-sede e que busca a primeira medalha olímpica de ouro), Estados Unidos (sempre uma força no futebol feminino e tri campeã mundial), China (que vem investindo bastante no campeonato local e com isso tem mostrado uma evolução) e a Alemanha (duas vezes campeã mundial).
Quando pensamos na relação entre biomecânica e o futebol, rapidamente podemos pensar na contribuição que a biomecânica pode trazer na diminuição de índices de lesão. Normalmente são classificadas de acordo com o contato ou não com o adversário, sendo as lesões musculares (não contato) as mais comuns. Uma das estratégias (em conjunto com marcadores fisiológicos) a serem utilizadas pela Biomecânica para a prevenção e determinação de lesões musculares é a Termografia, capaz de identificar diferenças de temperaturas contralaterais, indicando se existem áreas com hiper ou hipotermia, auxiliando na identificação ou prevenção do problema.  Já lesões articulares, como por exemplo, a ruptura do ligamento cruzado anterior (LCA), lesão com tempo de afastamento alto, tem sido bastante investigadas e uma das estratégias de prevenção são as avaliações com sistemas de cinemetria e a identificação de, por exemplo, valgos dinâmicos um dos principais fatores de risco.
Outro ponto constantemente explorado são as avaliações de materiais utilizados (chuteiras principalmente) na prática esportiva. Aparentemente a configuração e formato de travas podem aumentar o risco de lesão, em especial em movimentos de rotação, por conta do aumento de atrito com o solo, causando entorses de joelho e tornozelo, e até mesmo a ruptura do LCA. Por meio da pressão plantar as  lesões podais também podem ser investigadas, como a fratura do quinto metatarso, uma das mais graves e de maior reincidência. Destacam-se as investigações que tem por objetivo identificar a influência de movimentos específicos em conjunto com a utilização de materiais específicos a fim de descrever a distribuição da pressão plantar e locais de risco de lesão.

Prof. Renato Azevedo
Programa de Pós-Graduação em Educação Física
Universidade Federal de Santa Maria
Grupo de Pesquisa em Neuromecânica Aplicada
Universidade Federal do Pampa


quinta-feira, 11 de agosto de 2016

BIOMECÂNICA NOS JOGOS OLÍMPICOS | FUTEBOL*

O Futebol Olímpico masculino é uma mistura de jogadores das categorias de base com atletas profissionais consagrados. Todos os espectadores esperam a qualidade de uma Copa do Mundo, mas muitas vezes assistimos jogos sem muita técnica. Como os atletas com idade inferior a vinte e três anos normalmente ainda não se destacaram nas principais equipes mundiais, muitas vezes as partidas apresentam surpresas interessantes. No caso brasileiro, o que vimos foi uma série de equívocos na preparação da seleção ao longo do ciclo olímpico, com uma preparação focada nas seleções de base e, no final, com a inclusão de atletas já consagrados. Há muito tempo que conclamo por uma preparação esportiva baseada na ciência para o nosso futebol, com envolvimento dos pesquisadores para auxiliar em questões biomecânicas, fisiológicas, nutricionais, psicológicas entre outras áreas. 
No caso da Biomecânica, já existem muitos trabalhos concluídos sobre aspectos físicos (distâncias percorridas, distâncias percorridas nas faixas de velocidade intensas, relação velocidade e aceleração), aspectos técnicos (padrões de movimento dos segmentos corporais durante a realização de chutes, saltos e cabeceios) e aspectos táticos (medidas de compactação da equipe e coordenação entre as equipes, determinação do sistema de jogo efetivo de cada equipe). Entretanto, ainda não conseguimos espaço adequado nas equipes nacionais para que essas variáveis sejam incluídas nos treinamentos e, principalmente, sejam fornecidas aos atletas ao longo das suas carreiras esportivas de modo a possibilitarem a melhora do seu rendimento, a diminuição das lesões e do tempo de recuperação das mesmas e da valorização dos jogadores durante as negociações de transferência ou renovação dos contratos. Isso acaba refletindo nos recentes resultados das nossas seleções em competições importantes e, com certeza, leva a um descrédito por parte do torcedor, da imprensa e do investidor. A crise que passa o futebol brasileiro não é técnica, é cultural, pois ainda temos dogmas embasando nossa preparação e a falsa tese de que o individual supera o coletivo. Mesmo assim, se tivermos humildade para os ajustes necessários na preparação da nossa equipe olímpica, podemos conquistar uma inédita medalha.
Já a seleção feminina não tem incentivo nenhum em nosso país e jogadoras como Marta e Formiga ainda carregam nosso time nas costas. Resta saber se elas, já com idade avançada, conseguirão aguentar a pressão e o desgaste cada vez maior das partidas femininas para levarem o Brasil ao tão sonhado título olímpico. Equipes como Estados Unidos e Alemanha levam vantagem significativa pelo trabalho científico que é executado com as atletas nas competições nacionais e com os investimentos realizados nas atletas. As jovens jogadoras brasileiras só tem uma alternativa: jogar no exterior, pois quase não existem competições de alto nível em nosso país. No caso feminino, inexistem pesquisas em Biomecânica que possam reverter o enorme desnível na preparação física das nossas atletas em comparação com as principais seleções do mundo.
Desta forma, a Biomecânica tem um papel importante na evolução do futebol brasileiro, seja divulgando claramente os conceitos que embasam essa ciência como força, potência, velocidade e aceleração, seja consolidando protocolos de investigação que possam contribuir com os atletas e treinadores no intuito de melhorar condições de treino e competições e ajudar o Brasil a voltar a ser protagonista no futebol mundial. Além disso, a utilização de softwares livres e do conhecimento adquirido por pesquisadores brasileiros são fundamentais para a construção de banco de dados de atletas e, através de técnicas de mineração de dados, reestruturar os treinamentos e as avaliações físicas, técnicas e táticas das nossas seleções.

Prof. Dr. Sérgio Augusto Cunha

Faculdade de Educação Física - UNICAMP


*Comentário do editor: 
Haverá duas matérias sobre futebol. Esta é a primeira.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

BIOMECÂNICA NOS JOGOS OLÍMPICOS | POLO AQUÁTICO

Polo aquático é o único esporte coletivo que sempre esteve presente no programa dos Jogos Olímpicos, desde a primeira edição dos Jogos da era moderna, em 1896. Cada time deve possuir 13 jogadores, sendo sete titulares e, deste, um goleiro. O jogo é disputado ao longo de quatro quartos de 8 min de duração, em piscinas com, em média, 30 m de comprimento e 20 m de largura. Com exceção do goleiro, a bola só pode ser dominada, conduzida, passada e arremessada com apenas uma mão. Cada time possui 30 s para finalizar o ataque.
No feminino, Estados Unidos, Hungria e Austrália são os historicamente favoritos. Já no masculino, Croácia, Sérvia, Hungria, Espanha, Itália, Estados Unidos e Grécia são seleções de destaque. O Brasil, principalmente no masculino, pode surpreender, a partir da evolução obtida nos últimos anos.
Por ser realizado no meio aquático, em piscinas profundas, os jogadores executam técnicas específicas de propulsão e sustentação, tanto com membros inferiores (pernada em eggbeater) quanto de membros superiores (movimentos de palmateio). Esses movimentos possibilitam a elevação do jogador na água para executar passes, arremessos, recepções, bloqueios e defesas. Eggbeater e palmateios geram propulsão a partir de coeficientes de sustentação e arrasto relacionados a fatores como ângulos de ataque e de orientação, velocidade, aceleração, comprimento de corda e área propulsiva dos segmentos.
Jogadores normalmente apresentam grande área e massa corporal, que possibilita vantagens nas disputas individuais e potência para as elevações e arremessos. O melhor desempenho, na modalidade está relacionado a parâmetros individuais de potência, velocidade, agilidade e resistência. Deste modo, a potência de membros inferiores, com correta execução da técnica de eggbeater para as elevações do corpo na água, tem sido estimada pela altura atingida pelo atleta no salto vertical executado na água. Jogadores atingem alturas relativas a 70% da estatura. Velocidade e potência dos membros superiores, definidores da velocidade da bola no arremesso, tem sido avaliados pela velocidade da bola após arremesso, que chegam a atingir valores maiores que 80 km/h. Velocidade de nado é fundamental no início de cada quarto e na disputas individuais e tem sido avaliada em testes de natação. Agilidade, relacionada às bruscas mudanças de direção, devidos às trocas de bola e de posição, tem sido avaliadas em testes específicos que levam em consideração as situações inesperadas do jogo. Por fim, a resistência tem sido avaliada em testes de natação e eggbeater.
De modo complementar, como há natação e arremessos por sobre a cabeça, desequilíbrios musculares de ombro têm sido intensamente estudados em jogadores de polo aquático.
As questões biomecânicas relacionadas ao meio (arrasto e propulsão, principalmente), aliadas às características dinâmicas de um esporte coletivo, geram desafios à biomecânica como ferramenta de análise para identificar os aspectos que visam incrementar tanto o desempenho individual, quanto o desempenho coletivo na modalidade.

Prof. Dr. Flávio Antonio de Souza Castro
Grupo de Pesquisa em Esportes Aquáticos (GPEA)
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)


segunda-feira, 8 de agosto de 2016

BIOMECÂNICA NOS JOGOS OLÍMPICOS | BASQUETEBOL

O basquetebol como exemplo para o sucesso esportivo no Brasil

        Não há espetáculo esportivo maior do que as Olimpíadas. Receber um evento desta magnitude no Brasil é algo sensacional. Apesar de todos os pesares (gastos demasiados, estruturas que poderão ficar subutilizadas, possíveis corrupções associadas ao evento ou direcionamento do dinheiro investido no evento para áreas realmente carentes do país, tais como saúde, educação e segurança), não há como não se encantar com esta atmosfera esportiva em nosso país. Mas, o que esperar do basquetebol brasileiro?
        As equipes masculinas e femininas encontram-se em situações bem diferentes, mas ao mesmo tempo iguais. Diferentes, pois a base da seleção masculina foi formada basicamente por estrelas que atuam no melhor do basquete no mundo, a NBA. Enquanto a seleção feminina, vem de uma nova renovação de atletas que ainda buscam por se firmar. Entretanto, ambas as equipes encontram-se em um mesmo patamar no que diz respeito às expectativas para conseguirem medalhas, ou seja, com probabilidade muito pequena. Como gostaria de estar errado sobre tal afirmação!
        Então, qual a novidade no Basquetebol? Alguém se arriscaria a palpitar alguma seleção diferente da dos EUA para conquistar o ouro tanto na modalidade masculino quanto feminino? Particularmente, creio que os EUA ainda serão favoritos por muitos anos. Todavia, o que ainda tem diferenciado os norte americanos das demais equipes? Entendo que o esporte é multifatorial. Mas, creio que em termos de fatores físicos, táticos e psicológicos, não há muita diferença entre equipes que conseguem vaga para jogar as Olimpíadas, principalmente daquelas que conseguem se firmar entre os 8 países no mundo. Todavia, o fator técnica ainda tem sido determinante.
        A diferença técnica entre os EUA e os demais países ainda é muito evidente. Isso vai desde um maior repertório de habilidades motoras para atingir o êxito nas diversas situações do jogo, até a melhor eficácia para concretizar tais ações de maneira bem sucedida. Hoje, não se vê mais o basquetebol como um jogo de tabuleiros (jogo tático definindo os resultados), mas sim um jogo de força e velocidade dependente de talentos individuais. Mas, quem poderia auxiliar no desenvolvimento técnico de nossos atletas? O conhecimento em comportamento motor (desenvolvimento, aprendizado e controle motor) é essencial para aumentar o repertório motor de nossos atletas. Ao passo que, a biomecânica permitirá lapidar tais habilidades para um nível de alto rendimento.
        Tenho estudado há mais de dez anos o arremesso no basquetebol. Apenas hoje, após várias publicações, além da experiência atuando como técnico e atleta, posso dizer que entendo um pouco dessa habilidade. O arremesso de jump é o mais utilizado dentre as técnicas de arremesso, o mais eficaz (pois garante maior altura de lançamento, rapidez, proteção contra marcação e precisão), independentemente da posição em que o jogador atua (armador, ala e pivô). Já dizia Moacyr Daito: “o basquetebol é uma competição de arremesso de jumps”. Entretanto, quantos técnicos ou treinadores de basquetebol conhecem sobre esta habilidade motora? A precisão e consistência no desempenho dos arremessos de seus atletas são adquiridos ao acaso ou realmente com conhecimento de causa de suas intervenções? Bem, vamos tentar entender um pouco essa habilidade motora.
        Considerando uma análise biomecânica, o arremesso de jump é determinado basicamente por três fatores, a saber: ângulo, velocidade e altura de lançamento. Quanto maior o ângulo de lançamento, maior o ângulo de entrada da bola na cesta e, assim, maior a área virtual do alvo que aumenta a precisão do arremesso. Mas, para desempenhar grande ângulo de lançamento, é necessária maior geração de velocidade. Entretanto, o aumento na velocidade de movimento está diretamente relacionada à maior variabilidade de movimento inter-tentativas. Assim, tem sido recomendado o desempenho de um arremesso que garanta a menor velocidade de movimento dos segmentos e que proporcione melhor ângulo de lançamento. Neste sentido, o aumento da altura de lançamento é fator preponderante, pois diminui a velocidade de movimento e aumenta o ângulo de lançamento da bola.  
Acima resumi apenas três fatores que devem ser resultado da coordenação dessa habilidade motora complexa. Essa coordenação também possui suas especificidades, de acordo com as características de seus atletas e ambiente/situação. O grande desafio, entretanto, não é apenas a coordenação apropriada (padrão do arremesso). Adaptar o padrão de movimento às diversas restrições a ele submetidas no jogo e, principalmente, manter sua consistência ao longo de todo o jogo é o maior desafio. Essa é uma conversa um pouco mais longa para resumir aqui (coordenação e controle motor do arremesso). Todavia, entendo que outro fator determinante no desempenho é a especificidade no treinamento.
É muito comum encontrarmos no basquetebol, e em outras modalidades, o treinamento ser realizado com características de habilidades motoras de ambiente fechado (sem imprevisibilidade no ambiente). Enquanto, o jogo, na verdade, é puramente de característica aberta (com imprevisibilidade no ambiente). Por exemplo, atletas tendem a treinarem séries longas de arremessos parados, sem restrição de tempo para arremessar, sem marcação ou qualquer tipo de pressão psicológica. Isso é justamente o contrário do que ocorrerá no jogo. Neste sentido, não é difícil entender porque ainda em alto nível encontramos os famosos “leões de treino” (atletas que são perfeitos durante os treinamentos mas possuem péssimo desempenho nos jogos e nas competições).
A partir das poucas ilustrações realizadas é possível entender parte dos motivos que nos distanciam de medalhas olímpicas no basquetebol, ou mesmo de um desempenho admirável. O Brasil necessita de uma política pública esportiva. Entendo que o fortalecimento do esporte na escola seria o primeiro passo para a massificação esportiva. Posteriormente, seria necessária a criação de centros de treinamentos especializados, com avaliações e treinamentos embasados cientificamente. Isso tudo sustentando uma real profissionalização do esporte. Por fim, como resultado, teríamos a transformação do esporte em espetáculo, fato que garantiria a sua própria sustentabilidade. Nesse sentido, o basquetebol, mais especificamente o modelo que encontramos na NBA (ou qualquer outro esporte norte americano), é o melhor exemplo para o sucesso esportivo para o Brasil. Minhas palavras seriam apenas suposições se não fosse justamente a estratégia concretizada pela China nos últimos anos, fato que a transformou na segunda/primeira maior potência esportiva no mundo.
Enquanto o Brasil não desperta para uma política pública esportiva, pelo menos ainda temos o privilégio de vermos alguns atletas brasileiros ‘expoentes’ atuando na NBA. Chamo de ‘expoentes’, pois conseguir chegar à NBA com a estrutura esportiva que possuímos no Brasil, somente tendo muito diferencial, fato que reforça que talentos o Brasil possui. Apenas precisamos de uma melhor gestão esportiva.


Prof. Dr. Victor Hugo Alves Okazaki
Graduado em Licenciatura Plena em Educação Física (UFPR)
Especialista em Treinamento Desportivo (Faculdades Dom Bosco)
Especialista em Ergonomia (UFPR)
Mestre em Biomecânica (UFPR)
Doutor em Biodinâmica (USP)
Professor Adjunto da Universidade Estadual de Londrina
Professor orientador em nível de Mestrado e Doutorado na PPGEF (UEM/UEL)
Coordenador do Laboratório de Pesquisa e Ensino em Biomecânica (LAPEB)
Coordenador do Grupo Neurociências Motoras (NEMO)
Coordenador do Programa de Educação Tutorial da Educação Física (NEMO)