terça-feira, 12 de abril de 2016

AVANÇOS NA COMPREENSÃO DA BIOMECÂNICA DA MARCHA DE PACIENTES DIABÉTICOS

Isabel C N Sacco & Milla Dantas
Depto. Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional, Faculdade de Medicina da USP, São Paulo; LABIMPH



         A investigação das alterações da locomoção de indivíduos diabéticos  têm despertado o interesse de pesquisadores da área da biomecânica por quase 30 anos já, devido as consequências que o avanço dessa doença e da polineuropatia diabética podem gerar na funcionalidade e qualidade de vida dessas pessoas. Sabe-se que as articulações e músculos das extremidades inferiores são mais comprometidas pela polineuropatia diabética, e as alterações geradas nestas articulações, podem afetar a biomecânica de todo o membro inferior durante a locomoção, por adaptações não convencionais geradas nas articulações adjacentes. Os padrões de coordenação intramembro em indivíduos diabéticos com diferentes graus de polineuropatia foram investigados no trabalho recentemente publicado na PlosOne “Intralimb Coordination Patterns in Absent, Mild, and Severe Stages of Diabetic Neuropathy: Looking Beyond Kinematic Analysis of Gait Cycle.” Os autores, pertencentes ao Laboratório de Biomecânica do Movimento e Postura Humana (LABIMPH) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, analisaram o padrão de movimento e coordenação de todo o membro inferior de diabéticos e neuropatas com diferentes graus de severidade da polineuropatia, classificados por um sistema Fuzzy de suporte à tomada de decisão em saúde.
     
       Uma das grandes inovações desse trabalho foi olhar para a neuropatia diabética como de fato esse processo de doença é: insidioso, sem fronteiras claras entre o estado de saúde e doença, e com progressão não marcadamente clara. Esse sistema Fuzzy de classificação da neuropatia fornece uma estimativa do grau de severidade da polineuropatia do paciente diabético a partir de um método de inteligência artificial baseado em informações clínicas. Ele foi desenvolvido para que profissionais da área da saúde possam utilizá-lo sem a necessidade de especialistas, e assim decidir a melhor conduta clínica de acordo com a condição do paciente com base no conhecimento de especialistas. É de acesso público e gratuito (www.usp.br/labimph/fuzzy).

       Para a avaliação biomecânica da marcha, 60 indivíduos tiveram a cinemática das articulações do membro inferior mensurada e calculou-se a fase relativa contínua de pares articulares, buscando descrever as alterações nos padrões de coordenação intramembro durante todo o ciclo da marcha. Assim, tem-se uma segunda inovação desse trabalho na forma de analisar a marcha de diabéticos, dando um passo a frente das convencionais análises cinemáticas. Foram consideradas as alterações e compensações das demais articulações do membro inferior em conjunto por meio da fase relativa contínua, a qual é sensível para detecção de assimetrias na coordenação durante o movimento que, até então, pouco tinha sido utilizada na população diabética. 

     Os principais resultados mostram que a coordenação intramembro manifesta-se diferentemente dependendo da fase da marcha e da severidade da doença. A fase relativa contínua entre tornozelo e joelho foi sensível para diferenciar os graus de severidade neuropática, particularmente na fase da marcha em que o joelho e tornozelo assumem o papel chave de propulsionar o membro à frente ao final do apoio e início do balanço inicial. O padrão de coordenação entre tornozelo e quadril diferiu apenas os neuropatas moderados e severos dos controles, especialmente na transição da fase de apoio para balanço. Assim, tem-se que essa análise de coordenação permitiu identificar não só o tradicional par articular comprometido e que realiza compensações durante a locomoção para preservar a funcionalidade (tornozelo - quadril), mas passamos a ter um outro olhar para a articulação do joelho nesses diabéticos. 

         Este estudo e seus resultados permitiram alertar os estudiosos e os que intervém terapeuticamente nessa população que as alterações na coordenação da marcha são mais precoces do que se pensava, e mudanças na coordenação de tornozelo e joelho já ocorrem em estágios iniciais da neuropatia diabética.



Referência:
Título do trabalho: Intralimb Coordination Patterns in Absent, Mild, and Severe Stages of Diabetic Neuropathy: Looking Beyond Kinematic Analysis of Gait Cycle
Revista: PlosOne
Autores: Liu Chiao Yi, Cristina D. Sartor, Francis Trombini Souza, Isabel C. N. Sacco
Ano de publicação: 2016

doi: http://dx.doi.org/10.1371/journal.pone.0147300