sexta-feira, 19 de agosto de 2016

BIOMECÂNICA NOS JOGOS OLÍMPICOS | MOUNTAIN-BIKE CROSS-COUNTRY




Nos Jogos Olímpicos deste ano o mountain-bike (MTB) acontece nos próximos dias. Desde 1996 como parte dos jogos, o MTB é um dos esportes que mais ganha praticantes no Brasil. Nos jogos Rio2016 teremos três representantes: Raiza Goulão, Henrique Avancini e Rubens Donizete (o mais experiente em jogos olímpicos, que disputa sua terceira olimpíada consecutiva). O que assistiremos nos dias 20 (feminino) e 21 (masculino) é o cross-country olímpico, ou XCO. No XCO os atletas correm em um circuito (o da Rio2016 tem cerca de 4,85 km) sendo que os homens completarão 7 voltas e as mulheres 6 voltas. Diferente do ciclismo de estrada, os atletas do MTB não tem socorro mecânico, e se acontecer algum imprevisto, precisam se virar para chegar até o ponto de apoio.

As provas MTB serão pesadas e exigirão muito dos atletas. O trajeto escolhido para a Rio2016 tem tudo de melhor que o XCO pode oferecer. Como o XCO não pode ter mais do que 15% do trajeto do circuito em terreno plano, teremos trechos de fortes subidas e fortes descidas. Isso promete muita velocidade nas descidas e exigirá a melhor técnica dos atletas. Nas subidas, será a capacidade de produzir potência um dos determinantes. No nível olímpico, todos os competidores usarão o que há de melhor em termos de equipamentos, mas será a capacidade de produzir força rapidamente para retomadas e subidas, aliado a técnica de saltos e ultrapassagem de obstáculos o que poderá determinar os vencedores e as vencedoras.

A biomecânica tem um papel fundamental nisso. Ciclistas MTB possuem diferenças nos padrões de aplicação de força no pedal e de cinemática dos membros inferiores quando comparados com outros ciclistas de estrada. A maior amplitude de movimento do tornozelo observada durante a pedalada de atletas MTB parece garantir uma aplicação de força por mais tempo durante o ciclo de pedalada. Além disso, o ciclista MTB usa mais a “puxada” do pedal em subidas, assim como para buscar saltar obstáculos e diminuir o impacto nos trechos em que há pedras. Tudo isso combinado com uma grande capacidade de produzir potência. Logo, muita força muscular é exigida, e não somente nos membros inferiores. Por isso que cada vez mais os ciclistas MTB incluem rotinas de treino de força em seus treinamentos.

Quem leva a medalha de ouro? No masculino é tentador dizer que o favorito é Nino Shurter, o Suíço que ganhou quase todos os campeonatos mundiais e copas do mundo da UCI nos últimos anos. Mas é a França o país com mais tradição no XCO nos jogos olímpicos, tendo levado medalhas em todas os jogos até agora. O principal francês no páreo é Julien Absalon, frequentemente chamado de “o melhor de todos os tempos” e atual líder do ranking da UCI. Eles já duelaram forte antes e talvez na Rio2016 a disputa entre ouro e prata fique entre eles. Mas não podemos deixar de mencionar que o campeão mundial de estrada Peter Sagan veio a Rio2016 para competir no XCO. O Eslovaco que começou no ciclismo como atleta de MTB com vários títulos é conhecido por sua força e impressionante capacidade de produção de potência. Embora eu goste do Sagan, acho que ele não vem em condições de levar medalha. Henrique Avancini que obteve a 22ª posição no mundial deste ano, a melhor da história do Brasil no masculino, e que compete em casa, vem se preparando muito seriamente para a prova. Eu vou apostar em Avancini brigando pelo top 10, e que sabe, uma medalha. Estarei na torcida por ele.

Entre as mulheres, a dinamarquesa Annika Langvad que levou o campeonato mundial desse ano e várias etapas da copa do mundo é franca favorita. Jolanda Neff, da Suíça, que levou as copas do mundo de 2014 e 2015 e também compete no ciclismo de estrada, está sendo bastante cotada para vencer. Na Rio2016 ela já competiu, foi a 8ª colocada na prova de ciclismo de estrada. Então, considerando a temporada atual, fica fácil apostar em uma das duas para o ouro. E quem sabe nossa bicampeã nacional e 10ª colocada no ranking mundial não faz uma prova sensacional e belisca o pódio?

Então vamos ficar ligados, pois às 12:30h no sábado e domingo tem MTB na Rio2016.

Prof. Dr. Felipe Carpes
Presidente da Sociedade Brasileira de Biomecânica
Grupo de Pesquisa em Neuromecânica Aplicada
Universidade Federal do Pampa