Bruno
M Baroni
Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA)
Grupo de Ciência no Esporte & Exercício (GCEE)
Foram necessários menos de 25 minutos do jogo de abertura da Copa do
Mundo FIFA – Rússia 2018 para que Alan Dzagoev, um dos destaques da seleção
anfitriã, se tornasse o primeiro atleta do torneio a sofrer a famigerada “lesão
no músculo posterior da coxa” (Figura 1). Ao longo da competição, a lista de
lesionados foi reforçada por nomes de peso, como o brasileiro Douglas Costa e o
uruguaio Edinson Cavani. A lesão muscular de isquiotibiais (também conhecida
como “distensão” ou “estiramento” muscular) é a lesão de não-contato mais frequente
no futebol profissional masculino [1]. Para se ter uma ideia do tamanho do
problema: uma equipe de elite do futebol europeu costuma ter 5 a 6 atletas com pelo
menos uma lesão de isquiotibiais a cada temporada, sendo que 54% das lesões os afastam
dos gramados por períodos entre 8 e 28 dias [2]. Além do impacto negativo sobre
a saúde e a carreira dos jogadores, essas lesões causam prejuízos ao desempenho
da equipe nas competições e às finanças do clube [3].

Figura 1. Alan Dzagoev, da Rússia, sofreu lesão muscular de
isquiotibiais no jogo de abertura da Copa do Mundo 2018.
Entre 60% e
80% das lesões musculares de isquiotibias no futebol ocorrem durante a corrida
em alta velocidade [4, 5]. O terço final da fase de balanço parece ser o ponto
crítico, quando as fibras dos músculos isquiotibiais estão em comprimentos mais
alongados e são recrutadas excentricamente para frear o movimento combinado de
flexão de quadril e extensão de joelho [6]. Uma vez que a maioria das lesões de
isquiotibais acontece sem ação de forças externas provenientes do contato
físico com outros atletas (Animação 1), a comunidade científica tem dado grande
atenção aos fatores intrínsecos associados a essa lesão. Idade avançada e
lesões prévias são fatores de risco não-modificáveis bem aceitos na literatura
[7], ao passo que a influência genética está em processo de consolidação [8].
Porém, o principal foco da prevenção recai sobre os fatores que podem ser
alterados por meio de intervenções específicas. Nesse sentido, apesar de não
existir um consenso entre os pesquisadores, estudos prospectivos têm encontrado
uma maior propensão de atletas de futebol sofrerem lesões musculares de
isquiotibiais quando apresentam:
- Déficit
de força excêntrica dos músculos isquiotibiais [5, 9];
-
Desequilíbrio de força na razão isquiotibiais/quadríceps [9, 10];
- Déficit
de flexibilidade da cadeia posterior [11, 12];
- Reduzido
comprimento de fascículos do músculo bíceps femoral [5];
-
Déficit de ativação da musculatura estabilizadora de tronco [13].
Animação 1. A corrida em alta velocidade é o principal mecanismo gerador
da lesão muscular de isquiotibiais no futebol.
A
fadiga muscular também é um fator de risco muito valorizado por profissionais
que atuam nos departamentos médicos de clubes de futebol do Brasil [14] e do exterior
[15]. As demandas do jogo promovem uma redução significativa na força
excêntrica de isquiotibiais, mas não do quadríceps, o que agrava o
desequilíbrio entre esses grupos musculares ao longo de uma partida [16]. O músculo
fatigado apresenta decréscimo da capacidade de absorver energia mecânica antes
da ruptura [17], aumentando sua suscetibilidade à lesão. Além disso, a fadiga
reduz o senso de posição articular [18] e prejudica a execução de gestos
motores específicos do futebol [19]. Essa alteração de comportamento motor pode
levar a sobrecargas potencialmente danosas à musculatura isquiotibial. Em
conjunto, esses aspectos ajudam a explicar o fato de a maior parte das lesões
musculares de isquiotibiais ocorrerem durante os 15 minutos finais de cada tempo
em uma partida de futebol [4].
Dada a complexidade e característica
multifatorial da lesão muscular de isquiotibiais, raciocínios reducionistas de
relação causa-efeito devem ser evitados. Calendário competitivo [20], carga de
treinamento [21], características psicológicas [22] e até mesmo o tipo de
liderança do treinador [23] são alguns dos outros fatores relacionados à lesão.
Porém, é interessante notar que os fatores de risco aqui abordados são provenientes
de medidas puramente biomecânicas, como força, torque, ângulo, arquitetura e
ativação muscular. Isso não deve conduzir ao erro de simplesmente levar o
atleta ao laboratório e submetê-lo a inúmeros testes em dispositivos de
dinamometria, ultrassonografia, eletromiografia, cinemetria, etc. Antes de mais
nada, devemos assegurar que os dados possam ser fidedignamente coletados, analisados
de forma adequada, interpretados por quem conhece o real significado dos
valores obtidos e, sobretudo, convertidos em informações compreensíveis e com aplicação
prática para os profissionais da saúde que trabalham no futebol.
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